A PONTE DA AMIZADE ABRIU, E AGORA ?????

 

A visão de uma Infectologista sobre o impacto da reabertura da fronteira Brasil -Paraguai na Pandemia da COVID 19 em Foz do Iguaçu -PR- Brasil

Nas últimas semanas tenho sido questionada sobre qual o meu ponto de vista sobre a reabertura da Ponte da Amizade e sua possível repercussão nos casos de Coronavírus na cidade de Foz do Iguaçu , bem, então lá vai.

 

Primeiramente é preciso deixar claro que toda e qualquer atitude de “abertura” ( do comércio, da ponte, das escolas, dos cinemas, do parquinho infantil, da igreja, do puteiro, etc…) amplia a possibilidade de contatos entre humanos e estes ,por sua vez, favorecem a troca de cuspe, ranho, catarro e de brinde , eventualmente, coronavírus entre nós, primatas sem rabo.

 

PORTANTO:

 

Na sequência de qualquer ação do tipo é liquido e certo que teremos aumento das seguintes ocorrências ::

a- total de casos da doença.
b- pacientes graves.
c- taxa de ocupação dos leitos hospitalares, principalmente os da UTI, já que um doente grave de coronavírus “aluga ” uma vaga por quase um mês, sem falar no tempo em que vai ficar internado na enfermaria e convalescendo em casa .

Sabedores disso ,cada um por sua conta, deve fazer um exercício de avaliação de seu risco objetivo para adoecer gravemente e eventualmente morrer, caso se infecte com o SARS-CoV2 .

Num segundo momento é interessante, ao menos para os mais generosos e empáticos, que faça o mesmo para as pessoas de sua convivência , por exemplo : família, peguetes, amigos de fé e irmãos camaradas .

Avaliação feita, risco aferido, cada um deve se questionar : o risco que eu ou alguém de quem eu sou muito próximo e de convívio frequente vale que eu me exponha ao vírus num contato não essencial??

Exemplo hipotético – a vontade que eu estou de sair por aí “metendo o loko” , vale o risco de eu me expor ou expor a vó Alzira , o tio Luizinho ou o meu amigo Clodoaldo,( que é jovem ,mas está gordinho), ao risco aumentado de morte por esta doença?

 

Coloque tudo isso na balança, tire um tempo para uma reflexão ponderada e decida-se , suas opções são basicamente as três aí abaixo:

1- Meter o “loko” sem cuidado e depois viver (ou não) com as consequências.

2- Meter 1/8 de louco tendo encontros não essenciais de forma protegida e em eventos escolhidos.

3- Ficar em casa e só sair bem protegido e para encontros essenciais ( mercado/farmácia/hospital) , criar formas alternativas para manter encontros virtuais e conservar a saúde mental .

As dicas acima estão focadas na responsabilidade que cada individuo deveria cultivar , seja consigo mesmo, seja com as outras formas de vida, ao tomar decisões e fazer escolhas, principalmente as que impactam no coletivo (ahhhh, agora que vão me chamar de comunista mesmo!!!).
Como bem me ensinou meu querido professor de biologia Zenkiti , quando eu cursava o primeiro ano do ensino médio no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, mais ou menos na época em que os dinossauros foram extintos da Terra: a sua liberdade acaba, onde começa a do outro.

 

“Ninguém é uma ilha!”

Do ponto de vista de Saúde Pública para que a reabertura da Ponte da Amizade ( e futuramente a da Fraternidade) não se torne um evento que venhamos a lamentar, seja agora por conta da COVID 19, seja no futuro por fatos assemelhados, entendo que algumas proposições sejam razoáveis. Algumas para aplicação imediata e outras para ao menos começarmos a pensar, pois são tão ou mais necessárias que as de bate-pronto.

1- Manutenção das medidas de distanciamento social na circulação da tríplice fronteira : manter 2 metros de distancia entre os indivíduos, exigir uso adequado de máscara, disponibilizar e orientar higienização das mãos com álcool gel além de limpeza periódica de superfícies onde existe mais contato( maçanetas, balcões, mesas).

2- Controlar o fluxo de pessoas dentro dos estabelecimentos comerciais e na circulação pela ponte da amizade para garantir maior adesão as medidas acima.

3- Divulgar amplamente informações sobre formas de contágio, sintomas e medidas preventivas para a COVID 19 entre os circulantes na fronteira .

4- Divulgar amplamente na região da Ponte da Amizade os números de telefone / WhatsApp para tele atendimento dos pacientes com sintomas respiratórios leves pelo plantão Covid : 35211800 e 08006455655, de acesso gratuito e associado ao serviço de TELEMEDICINA do SUS.

5- Aperfeiçoar, avaliar continuamente e ampliar, conforme necessidade, as estruturas assistenciais de forma a fazer frente ao incremento de casos da Covid 19 que a reabertura da fronteira fatalmente nos trará ( plantão telefônico, telemedicina, laboratório, leitos de internação, estruturas de vigilância entre outras).

6- Estabelecer e manter uma linha de comunicação com as autoridades paraguaias e argentinas para ações conjuntas referentes a Pandemia na Tríplice Fronteira, que seria o embrião para a criação de um serviço conjunto ágil e efetivo de atenção a saúde na Tríplice Fronteira capaz de coordenar ações de monitorização , vigilância ativa além de propor intervenções de prevenção e controle de doenças infecciosas adequadas as particularidades locais, tornando a região mais segura em termos sanitários para todos seus habitantes e visitantes ,oferecendo um modelo de saúde única para outros países em áreas fronteiriças.

7- Incrementar a aproximação e estabelecer cooperação oficial e contínua entre as Faculdades da Tríplice Fronteira estimulando ações conjuntas de : ensino, pesquisa e extensão em benefício a população multiétnica de nossa região.

8- Divulgar de forma clara , ampla e transparente as informações sobre a situação da Pandemia na Tríplice Fronteira através de boletins periódicos.

9- Entender ,de uma vez por todas ,que somos interdependentes e que todas as ações de reabertura só estão ocorrendo porque hoje temos conhecimento ( que a ciência nos proporcionou) e estrutura preventiva e assistencial ( que o esforço coletivo bem direcionado construiu) adequadas para fazer frente ao aumento de casos que inevitavelmente ocorrerá, mas que isso não significa que a Pandemia acabou na nossa região e também vale deixar bem claro que a manutenção de nossos resultados favoráveis( em termos de pacientes recuperados e da oferta de exames e de leito hospitalar para quem necessita) só vai se sustentar se cada um de nós continuar fazendo a sua parte.

 

Dra. Flávia Trench
CRM 12550-PR – Infectologista
Professora Assistente do Curso de Medicina da UNILA – Universidade Federal da Integração Latino -Americana.

 

Texto escrito a pedido da minha amiga e colega de trabalho no Magistério Superior, Professora Doutora, Pica das Galáxias, mãe da Alice, Maria Cláudia Gross.

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